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Enviado por Rafael Velame - 2.8.2010 | 14h25m
Crônicas Apissianas 2010 – Série D – Suassunianas III

Mais pobre do que Vossa Senhoria é Severino do Aracaju, que não tem ninguém por ele, a não ser seu velho e pobre papo-amarelo. Mas mesmo assim eu quero ajudá-lo, porque Vossa Senhoria é meu amigo. (Ariano Suassuna, In Auto da Compadecida, 1959).

Meus caros, um das necessidades espirituais do homem é a de se posicionar entre o certo e o errado. O ser humano tem uma precisão de afirmação, de que seja julgado moralmente. A todo momento, aliás, estamos julgando atos e omissões, nossas e dos outros. Ainda que não sejamos juízes, fazemos juízos, a partir de nossa história de vida, com base em valores em nós arraigados durante nossa formação enquanto pessoa. Ultimamente, conversando com os mais velhos, inclusive, percebo uma exacerbação do discurso de que a juventude não tem mais educação, que as pessoas já não se importam com as outras, há um excessivo individualismo, que os jovens não mais respeitam os idosos. Quando me peguei concordando com um colega, pai de família revoltado com essa tal lei das palmadas, entendi que também tinha ficado velho.
É fato de que os jovens de hoje, como cada nova geração que sucede a outra, mudam os códigos de conduta, transformam, ressignificam e dão nova dimensão aos códigos sociais. Nessa transmutação, perdem-se alguns códigos sociais importantes, sendo que prá mim o mais grave é a perda da cordialidade.
Porém já me peguei tentando entender se essa cordialidade de fato desaparece, vez que, no sentido sociológico do mesmo, descrito por Antonio Callado e por Sérgio Buarque, significa aquele que age com o coração (cordis, em latim). Antes de ser gentil, o brasileiro é emocional. Mas aí, numa seara na qual o ser humano se transforma na mais brutal besta-fera nos dias de hoje, qual seja, o trânsito urbano, dou de cara numa manhã de sábado em plena Senhor dos Passos, com um senhor puxando um daqueles carrinhos de badameiros cruzando a avenida. Paro o carro, ele agradece, avança, mas pára, súbito, diante daquela via exclusiva dos ônibus. Qual não é minha surpresa ao ver que um motociclista para sua moto e a coloca na faixa dos coletivos, e começa a sinalizar para o motorista do ônibus para que o velhinho passasse com sua carroça. Além de contribuir para quebrar meu preconceito com o pessoal de duas rodas, o evento sinaliza essa chama de gentileza que nos mantém em sociedade.
Mas a dimensão sociológica de falam Callado e Buarque, do brasileiro emocional, tem um componente perverso, que é traduzido pelo famoso jeitinho brasileiro. E o que seria o tal jeitinho senão a prevalência do emocional sobre o racional? Levado ao âmbito institucional, o jeitinho explica as diversas deformidades do nosso sistema jurídico, com a prevalência da amizade sobre a lei. Ora se não era do velho coronel baiano a máxima preferida: aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei?
Mestre Nelson lamenta a perda desse senso emocional dizendo que já não se mata por amor como antigamente. Com efeito, histórias trágicas de amantes mortas hoje em dia são muito mais por motivos vis como pensões e heranças do que por paixões avassaladoras e doentias, como no passado. Bruno não merece metade da misericórdia de um Lindomar Castilho, por exemplo.
Misericórdia. A mãe da justiça, nos dizeres de João Grilo.
No Auto, o encerramento se dá exatamente no juízo final (para os mortos) no qual o Diabo no papel de promotor se apega a leis e alfarrábios cristãos para enumerar as acusações aos mortos e estas vão sendo desmanchadas uma a uma, ora por João, ora pelo próprio Jesus, até que, no indefensável do julgamento, João Grilo apela para a misericórdia, encarnada pela Compadecida, Nossa Senhora. Engraçado é que os únicos que não precisam da interferência dela e vão direto para o céu por interferência de Jesus, são os cangaceiros, o cabra e seu chefe Severino de Aracaju.
Aracaju, a prima do litoral. E nessa tarde de domingo no Batistão, onde o River (Rio) Sergipe se torna Plate, em honra dos hermanos, deu-se o embate. Touro X Severino.
Fluminense vem de flúmen, que é o habitante das regiões ribeirinhas, segundo o filósofo Samuel. Prata ou Sergipe, o River veio pra cima do Touro e um toque de mão (fora da área segundo alguns) transforma-se em pênalti para os severinos. Amigos, o cangaço é cruel. Severino, no Auto da compadecida não sabe quem é ela:
“Foi coisa que nunca conheci. Onde mora?E como chamá-la?” (Auto da Compadecida, ato 168)
Pois Aloísio conhece, o Flu-grilo se apegou a ela, e nosso goleirão defende o pênalti, para alívio apissiano.
Segue o Touro nesse julgamento, e se mantendo na defesa para sair em contra-ataques. Com Petros no lugar de Gladystone, o meio campo parece girar um pouco melhor, com Gil e Júnior Gaúcho fechando a frente de zaga, mas o jogo seguia corrido.
Quando íamos pro intervalo sem novidades, eis que um chute de fora, como um disparo de fuzil de cangaceiro, coloca o River na frente. Aí não se cabe apelar para a misericórdia, mas lamentar a profunda injustiça. Caberia ao Flu-Grilo conseguir o jeitinho?
Vem o segundo tempo e o Flu avança firme. Entra Roni, atacante, o Flu resolve arriscar mais, e a Compadecida resolve nos agraciar, não sem uma dose de talento. Em jogada trabalhada por Ribinha, Petros e Júnior Mineiro, este último decreta a justiça divina. Sim, Severino, Feira é de Sant´Ana, mãe da Compadecida, e intercedeu por nós. Salve Santana, Padroeira do Lugar...
O jogo segue aberto, com ambas equipes buscando a vitória, mas o lance derradeiro fica para a nova chance de quebra do tabu. Sim, amigos, existe uma maldição sobre esse meia do Flu chamado Petros. Ele simplesmente não consegue acertar o gol. Pois nesse domingo não foi diferente, só ele e o goleiro. Naquele momento em que um átimo de segundo decide um jogo, uma vida, falta o instinto matador. Falta o desconhecimento da misericórdia. Severino matava porque não titubeava em julgar. E, senhores, se tem um ser humano que está impedido de julgamentos, este é o centro-avante. Como os carrascos, como os bandoleiros, como os cangaceiros, a ele só cabe executar. Mas Petros não é centro-avante. Petros não é Severino.
E assim, o Flu, se não alcança o paraíso dos cem por cento de aproveitamento, se vai ao purgatório do empate, porque foi misercordioso com os severinos. Resta saber se estas concessões à cordialidade não vão fazer falta adelante.
Que em casa, o Flu se lembre das pugnas e volte a ser miúra, sem pena dos Severinos. No mercy. Porque se trata de Morte e Vida, Severina que é essa Série D.

*Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e julga estar divertindo os torcedores do Flu de Feira.

PS1: Ápis é o touro sagrado do Antigo Egito. Daí o adjetivo apissianas.
PS2: Ariano Suassuna escritor e dramaturgo paraibano é um dos ícones da literatura nordestina e autor da peça mais popular da história do teatro brasileiro – Auto da Compadecida, a quem essa série de crônicas presta singela homenagem como Suassunianas
 

 
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Enviado por Rafael Velame - 27.7.2010 | 9h43m
Crônicas Apissianas 2010 – Série D – Suassunianas II

No avesso de um espelho claro
No chicote da barriga do boi
No mugido de uma vaca mansa
Foragido como judas em paz
A pessoa que você mais ama
No planeta vendo o mundo girar
(Zé Ramalho, jardim das Acácias).

Amigos há dias que precisam ser registrados. Um dos elementos da epopéia é exatamente essa dimensão exagerada, que transfere uma grandiosidade, uma grandiloqüência que passa uma dimensão sobre-humana. Daí advém o fascínio humano pelos heróis, figuras mitômanas em especial aqueles semi-deuses gregos, tipo Aquiles e Hércules. Em que pese toda a humanidade dos deuses, como Zeus, Afrodite, Hera e Cia., capazes das vilanias mais mesquinhas, Aquiles e Hércules, na qualidade de semi-deuses, vez que filhos de uma relação entre deuses e mortais, são em geral figuras mais adequadas ao imaginário do povo, e iniciaram a tradição ocidental dessa figura do herói, que ainda hoje fascina. Isso pode ser visto no recente remake de Fúria de Tiãs, filmete meia boca de minha adolescência hoje parametrizado com requintes de efeitos visuais e tecnologia 3D, para se transformar em mais um blockbuster hollywoodiano. Aliás, é Hollywood nossa mantenedora de heróis e vilões, nossa fábrica de mitos que não raro se alimenta das HQ´s (histórias em quadrinhos) para perpetuar esse nosso instinto pelo sobrehumano. Com isso criamos os super-homens, homens-aranhas, homens-morcegos e mulheres maravilhas e gatos e etc. Mais sofisticados são os X-men, como os mutantes que serão a nova geração da humanidade. Envolvidos nessa mitologia moderna nos distanciamos de nossa realidade e, em alguns casos, até tentamos compor ambas visões como no caso do filme Besouro, que o herói é um capoerista de relato de história oral com direito a balé de coreógrafo hollywoodiano (Hiuen Chiu Ku, de Kill Bill, Matrix e o Tigre e o Dragão). Mas é na nossa literatura que ainda encontramos refúgio, como trincheira de nossa cultura que recebe nossos sacis, curupiras, caiporas, pedros malazartes, macunaímas e nossos já citados João Grilo e Chicó.
Mestre Ariano Suassuna é uma figura ímpar. Por si só é uma personalidade mítica. Suas “aulas-espetáculo” são disputadíssimas não só no meio acadêmico. Uma de suas cismas é exatamente a negação dessa influência ianque em nossa cultura. É delicioso vê-lo falar que americano chama copo de glass: “Vejam vocês. É só vocês olharem pra isso aqui (mostra o copo) e ver que não tem nada de glass. Qualquer criança sabe que é um copo de vidro!”
Assim, nessa guerrilha anti-hollywoodiana, João Grilo e Chicó são oficiais de alta patente, exatamente pela força do texto de Susassuna, que consegue atingir o imaginário popular.
Ora o imaginário popular.
Quem mais alimenta esse ente na criação de mitos do que o futebol? Sejam como heróis ou vilões. Mais vilões, recentemente...
Pois tal como nas pinturas grandiloqüentes dos retratistas de imperadores, o céu da princesa do sertão afastava a possibilidade de chuva naquele fim de tarde e se trasmutava em um painel impressionista em cores gremistas (azul e o branco e cinza das nuvens) com retoques de dourado do sol de entardecer. Sim, senhores, a natureza sabe que é necessário emoldurar convenientemente os lugares onde o épico deve acontecer. E assim o foi neste domingo. E assim haverá de o ser em cada batalha fraticida desse grupo A-5 da Série D. Ontem degladiavam-se Feira de Santana e Campina Grande. Bahia X Paraíba. Quitéria X Quaderna. Pedra do Descanso X Pedra do Reino. Tiquaruçu X Taperoá.
O Treze, campeão paraibano, folha salarial duas vezes maior que a do Flu, se espalhou pelo estranho gramado do Jóia. Aliás, cabe aqui uma ressalva. Em que pese as chuvas caídas, o aspecto do nosso estádio é de total abandono pelo poder público. Gramado péssimo, placar quebrado e destruído, torres de iluminação sem vários refletores, pintura desfeita. Triste.
Mês dizíamos que o Treze se espalhava e, na pedra de turmalina, e no terreiro da usina pareciam criados. Voavam por toda área e num contra-ataque condenado eu me calei. Treze 1 X 0, fácil. Êêô vida de gado... O Touro parecia marcado, ê. E o povo, infeliz. João Grilo estava presente sim, incorporado em Cléo, o pequenino atacante paraibano que infernizava a zaga tricolor.
Mas, rebuscando a consciência, perdendo o medo de arriscar até o meio da cabeça da área adversária, o Flu, talvez inspirado no belo arco-íris que emoldurava o céu de pintura, girou na carrapeta, no jogo de improvisar
Entrecortando, Sadrack seguiu dentro a linha reta numa falta de fora da grande área e deixou o goleiro paraibano imóvel como a Pedra do Reino.
Flu 1 X 1, prá doutor não reclamar...
Mas o jogo seguia morno, o Treze acomodou-se e o Flu parecia perdido com Ribinha sem conseguir cortar para esquerda e insistindo em partir pro meio e com Cicinho ciscando como uma graúna, mas sem objetividade alguma.
Assim acabou o primeiro tempo, para alegria da pequena torcida paraibana ali à esquerda das cabines. Volta o segundo tempo e em cinco minutos o Touro vem à tona e sua ira é intensa. Numa jogada tramada pelo estreante Valdo, que entrou no meio campo, Cicinho recupera o João Grilo e acerta um chutaço cruzado da entrada da área. Flu 2X1, Incantado e Aruá.
As diatribes de João Cicinho Grilo, que corria ora pela direita, ora pela esquerda deixavam os dois armários da zaga do Treze mais perdidos do que o Bispo e o Padre do Auto da Compadecida. Quem pagou o pato foi o padeiro, quero dizer o volante Pio, que levou o vermelho para desespero da torcida do Flu. Sim, da torcida do Flu, porque o Touro está com uma maldição do cartão vermelho que faz com que toda vez que o outro time perde um jogador o Flu tome um gol. Com efeito, bastou uma inocente bola alçada na área, e o João Grilo mudou mais uma vez para Taperoá, com Cléo de novo aparecendo na frente de Aloísio, raspando de cabeça a bola cruzada e indo fazer cambalhotas junto da pequena torcida paraibana. Treze 2X2 Flu...
E foi-se o silêncio que habitou-se no meio do Jóia. Mesmo a bateria da Falange ficou parada por alguns instantes.
Em campo, o Treze fazia jus ao nome, pois parecia haver treze jogadores com camisa listrada correndo, e não dez, como de fato havia.
Mas aí os contornos de epopéia se desenham. O Flu, até então apático, investiu suas hostes sobre os paraibanos, ainda que embolando pelo meio, quando a torcida se esgoelava pedindo para o João Grilo Cicinho abrir nas pontas. E após uma pressão fantástica, uma falta encheu de esperança a torcida. De novo, Sadrack se posiciona, agora pela direita, excelente para bater de pé trocado. Mas no Flu nada é fácil. Numa batalha epopéica como esta, também não. E a bola explode no travessão e sobe às alturas para cair certa na cabeça de Valter, vulgo Oliveira, e decretar o triunfo taurino. Flu 3X2, aos 43 do segundo tempo.
Desnecessário dizer que os mil e quinhentos privilegiados presentes ao Jóia explodiam de felicidade.
Quanto ao Treze, só nos resta pedir que deixe a porta aberta quando for saindo.
Você vai chorando e  eu fico sorrindo.
Nesse domingo meus caros, mitos foram criados. E pelo menos dois heróis foram forjados, a ferro e fogo: Sadrack Chicó e João Cicinho Grilo. Juntaram-se aos super-homens do último jogo, Aloísio e Júnior, o Gaúcho. Resta saber quantos panteões deveremos erguer a nossos semi-deuses, pois a mim me parece que estamos vivenciando uma nova Odisséia...
E quem sabe talvez o Flu não esteja agora incorporando esses heróis enquanto super-homens não os dos quadrinhos, mas no sentido Nietzschiano do termo, com esse processo contínuo de superação, através da vontade de potência...
Oh eu não sei se eram os antigos que diziam, mas em seus papiros Papillon já me dizia...
Que nas torturas toda carne se trai, e normalmente, comumente, fatalmente, felizmente displicentemente o Touro se vai...

Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e acha que Zé Ramalho, paraibano de quem emprestamos vários versos na crônica é o Bob Dylan do nordeste.
 

 
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Enviado por Rafael Velame - 19.7.2010 | 13h50m
Crônicas Apissianas 2010 – Série D – Suassunianas I

Ao escrever esta peça, onde combate o mundanismo, praga de sua igreja, o autor quis ser representado por um palhaço, para indicar que sabe, mais do que ninguém, que sua lama é um velho catre, cheio de insensatez e de solércia. Ele não tinha o direito de tocar nesse tema, mas ousou fazê-lo, baseado no espírito popular de sua gente, porque acredita que esse povo sofre, é um povo e tem direito a certas intimidades (Ariano Susassuna, in: Auto da Compadecida. 1957. p.23-24).

Após um intervalo em que compromissos profissionais, falta de inspiração e baixo estímulo conjugados bloquearam essa minha cisma de escrita, eis que num fim de semana morno retomamos o vício, e, ao ouvir, entre chiados e barulhos das ondas do rádio, a narrativa homérica vinda dos confins do Agreste pernambucano, resolvemos nos por à lida outra vez.
Sempre acreditei que Feira têm duas cidades irmãs: Campina Grande e Caruaru. Alguns dizem que têm outra, Aracaju, mas não acho. Aracaju é, no máximo, aquela prima burguesinha do litoral que vem visitar os parentes no interior e fica se gabando do mar, dos colares (como aquela belíssima ponte estaiada ligando o centro à Atalaia Velha, o novo cartão postal da capital sergipana), dos shoppings, etc. De fato, Aracaju, apesar de muitas coisas em comum, como o mercado, as comidas e as gentes, não nasceu no Agreste. Não está na porta do Sertão. Pelo contrário, se debruça sobre os rios e mares e prefere água de coco à água de moringa. Campina e Caruaru, não. Distância semelhante das capitais (entre 100 e 150 km), tamanho semelhante, histórico de crescimento idem, já que cumprem a função de primeiro receber os retirantes que saem do Sertão com destino à capital. Foram, para muitos, o primeiro contato com a urbe. No caso de Campina, pelo fato de João Pessoa ser pequena também, chega a rivalizar com a prima litorânea. Já Caruaru empata mais com Feira, como dimensão urbana.
Quis o destino que essas três cidades irmãs, e mais a prima bonitinha do litoral, se envolvessem nesse embate de proporções Suassunianas. Sim amigos, ao contrário do ano passado, quando o Flu teve que se aventurar por paragens estranhas como Macaé e Vila Velha, esse ano a CBF nos premiou com paisagens mais caras ao nosso Ápis. O grupo do Flu na Série D envolve o Treze de Campina Grande, o Central de Caruaru e o River Plate(?) de Sergipe, que manda seus jogos em Aracaju. Diria que temos então um torneio dentro do outro. Um campeonato do Agreste Nordestino. Dois seguirão adiante. Um deles há de ser o Touro Incantado e Aruá.
Sim, pois, acostumado com veredas, lajedos da caatinga, mas também conhecedor dos olhos d´água e da brisa fresca do litoral, nosso touro iniciou sua epopéia Suassuniana desbravando o Agreste pernambucano justo na cidade que lhe tomou o epíteto de maior Feira Livre do Mundo. Tomou, aliás, não é bem o termo, pois fomos nós que entregamos de mão beijada, quando a feira de Feira foi destruída, sede de quem mata, a fauna flora a sede dessa gente nata, que sofre calada com uma grande mágoa e um nó na garganta que nunca desata, nos versos do grande Jatobá. Senhora Santana chora, sente falta da feira que no mundo afora ganhou fama, mas prefiro imaginar Caruaru como herdeira dessa nossa tradição, que insiste em se manter viva ali na Estação, na Cidade Nova, no Tomba e alhures.
Apois, seguiu nosso Touro, valente e calejado “pulas” contendas desse tal Nordestão, que tem a nós castigado com puyas cruéis em fim de jogo, mas que nos importa mais pela visibilidade do que pelo troféu. Sim, ao contrário do que divulgam por aí, claro que a grana que o clube recebeu pelo campeonato é boa, mas esse prá mim ainda é um campeonato incerto. A série D ainda é o caminho para atingirmos a estabilidade financeira na tão sonhada Série B, onde hoje brilha o ASA, por exemplo. Mas como dizia, seguiu nosso Aruá por entre essas veredas até Caruaru. Para enfrentar um Central motivado. E melhor, descrente no nosso Touro. Sim, os amigos pernambucanos dão como certa a passagem do Central e do Treze e alguns colocam o Flu como o mais fraco do grupo. Ora, ora, mal sabem eles que o Touro faz às vezes de João Grilo, o imortal símbolo da esperteza nordestina resgatado e elevado a herói por mestre Ariano Suassuna.
Assim, nosso Touro Grilo se fez de bobo e esperou a volúpia do Central, que em 20 minutos de jogo já tinha chegado três vezes e tido um gol anulado. Só que o Flu estava jogando segundo os mais modernos preceitos táticos vistos na Copa da África: duas linhas de quatro com dois avantes à frente. Fechando os espaços para sair no contra-ataque. E, se a defesa vinha falhando nos jogos do Nordestão, Ubirajara não teve dúvidas, sacou a dupla de zaga e colocou uma novinha em folha que, quando falhou, encontrou um Aloísio em tarde de Casillas. Passado o baque inicial, o Flu reorganizou os nervos e passou a executar com mais calma a tática prevista. E se não ousava mais era porque Gladystone não conseguia encostar mais em Ribinha, para articular os contra-ataques. De fato, nosso bom volante não aceitou muito bem a responsabilidade de fazer às vezes de meia, e o Flu com isso só ameaçava em bolas paradas de Sadrack. Vem o segundo tempo e o time muda um pouco a postura, ganha confiança e preenche melhor os espaços. O Flu-Grilo parece se divertir com o desespero adversário. O Central faz trocas tentando furar o esquema tricolor, mas não consegue, pois nossa frente de zaga, reforçada pelo pitbull Gil, é o Reino do príncipe do sangue do vai-e-volta (prá ficar em outro personagem suassuniano), Júnior Gaúcho, o melhor em campo depois de Aloísio. O jogo parece se encaminhar para um morno, porém lucrativo zero a zero. A rotina só é quebrada quando uma pane nos refletores faz com que as transmissões via rádio e internet caiam, deixando em polvorosa toda a torcida tricolor em Feira e no resto do mundo. Assim que a comunicação volta, ainda entre chiados, como nos velhos transistores a válvula de outrora, no entanto, o espírito de João Grilo encarna em Ribinha que numa jogada garrinchiana (vá dizer que Garrincha não era primo de João Grilo?) se livra de dois marcadores, e cruza para uma antecipação estranha de Júnior Mineiro em dia de Chicó. Isaías, goleiro do Central ainda pergunta como foi isso?
Não sei. Só sei que foi assim.
Flu, com as bênçãos da Compadecida, um a zero, aos 37 do segundo tempo.
Daí o desespero pernambucano só fez aumentar a pressão nos mais de oito mil retirantes que empurraram o Central pra cima, mas o Flu estava incantado. E mesmo o Central não conseguiu lavar o gramado com o sangue necessário para quebrar este cruel encantamento. Como diria Dom João Ferreira-Quaderna, Rei da Pedra Bonita ali no Pajeú, prá ficar em outro personagem Suassuniano.
Sim amigos, esses serão dias de uma luta fraticida. Cidades irmãs em embates homéricos. Como Atenas X Esparta. Siracusa X Corinto. Roma X Cartago. Mas também uma epopéia nordestina como tantas que já nos houve. Como Canudos, como Os Sertões e como a Pedra do Reino, de mestre Suassuna. E há de nos acabar, a nós, Taurinos Incantados, Aruás e Apissianos, como um alegre folguedo de Chicó e João Grilo, na solércia ingênua de nossos heróis macunaímicos.

Cristóvão Cordeiro – é professor, engenheiro, torcedor taurino e sabe que o nordestino é, antes de tudo, um forte.
 

 
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